Fuga


Minhas pernas estão queimando e parece que estou respirando carvão em brasas. Estou correndo há não sei quanto tempo, numa fuga desenfreada. Não ouso olhar para trás, estou concentrada demais nos galhos, moitas e buracos à minha frente. Desviar a atenção agora é pedir para tropeçar, e isso significaria que eles reduziriam a distância que nos separa. Se eu tiver a sorte de não quebrar uma perna.

Eu conheço esse bosque como a palma da minha mão. Sei que se eu conseguir chegar ao riacho vou conseguir escapar. Eu só preciso me concentrar em colocar um pé após o outro, um pé após o outro… Inspirar, expirar… mesmo que o ar não pareça ser o suficiente.

Eu corto minha bochecha em um galho baixo, mais um arranhão se juntando aos que se espalham por meus braços e pernas. Eu sei que preciso ser mais cuidadosa, que o sangue vai atrair a atenção dos cães e os fiapos da minha roupa vão ser um prato cheio para os rastreadores. Mas o medo está nublando a minha mente, crescendo e ficando mais perto de se transformar em pavor a cada minuto que passa. A única coisa em que consigo pensar é chegar no riacho.

Uma perna, outra perna, uma perna, outra perna, uma perna, outra perna…

Meus olhos se arregalam de leve quando o som distante da água fica mais alto que minha respiração pesada. Merda, o riacho está mais à minha direita do que eu imaginava. Eu dou uma guinada sobre a grama, certa de que meu movimento vai ficar marcado para os rastreadores, e desço por um pequeno barranco para ajustar meu curso. Imediatamente me arrependo, porque na metade da descida meu pé enrosca em uma pedra e eu caio. Por sorte eu não me feri além de algumas contusões e pequenos cortes, mas vai ser impossível eles perderem meu rastro depois disso.

Tento não calcular mentalmente as chances da minha fuga dar errado, e repito para mim mesma que isso não importa. Eles vão me perder assim que eu chegar à água, já que os cães não terão mais nenhum cheiro para seguir, e os rastreadores não conseguirão mais saber por onde passei. Eu me concentro nisso para ignorar a dor e tento não pensar que não tenho um plano B.

Se eu não conseguir chegar na água, se eles não perderem meu rastro, se eu não conseguir mais correr, se eles adivinharem para que lado eu vou… tanta coisa pode dar errado que meu coração acelera ainda mais – eu nem sabia que isso era possível!

Foco, eu preciso focar adiante. Me concentro no burburinho da água, e sei que agora estou na direção certa. O que é muito bom, porque eu sinto que não vou conseguir continuar por muito mais tempo. O latido dos cães também parece mais perto, eles devem estar ganhando terreno. Mas não vão me pegar, não podem me pegar.

Já consigo ver a água, sentir o cheiro úmido da terra e das pedras. Minhas pernas começam a ceder, mas eu me forço a continuar. Falta tão pouco.

Cinquenta metros, quarenta metros, trinta metros. Preciso chegar mais perto para decidir se subo ou desço o rio. Vinte metros, dez metros.

Ali! A ponte abandonada e caindo aos pedaços.

Fico aliviada pelo meu pequeno erro de rota não ter me desviado tanto assim de onde eu queria chegar. Eu paro e tento estabilizar minha respiração para conseguir retomar minha fuga, já pisando na água e sentindo meus tênis e meias ficando enchacados. Agora eu preciso descer o rio, somente algumas centenas de metros, e me esconder entre as reentrâncias enlameadas da ribanceira.

Por que eu sei que isso vai funcionar? Eu já disse, porque eu conheço esse bosque como a palma da minha mão. Porque eu sei que uma dessas reentrâncias é, na verdade, uma das saídas de uma pequena gruta, pela qual eu vou me esgueirar e desaparecer.

Eu volto a correr, agora com as energias renovadas pela esperança de conseguir alcançar minha rota de fuga. Tento pisar nas pedras mais próximas da superfície do riacho para não fazer tanto barulho, mas sei que minhas melhores chances são se eu sumir de vista antes que eles cheguem. Então eu ignoro as agulhas em meus pulmões e a queimação nas minhas coxas, por mais que eu tenha a impressão de que meus músculos vão arrebentar com meu próximo passo.

Manter meu equilíbrio nas pedras lisas e escorregadias é um desafio à parte, mas eu sigo à toda velocidade. Reconheço as árvores e curvas e pedras no caminho e sei que estou cada vez mais perto.

Eu chego na entrada da gruta, escondida por folhas e raízes, sentindo um gosto metálico na boca. Minhas pernas tremem enquanto eu me esgueiro pela passagem estreita, mas tenho que ir com calma, sem danificar a folhagem. Eu não ouço mais ninguém atrás de mim, mas eu preciso ser cautelosa.

Exausta, consigo finalmente me arrastar para dentro da gruta.

Minha adrenalina baixa imediatamente após eu conseguir entrar na gruta, fazendo com que eu caia de joelhos e vomite meu parco café da manhã. Eu me arrasto por mais alguns metros e me escondo nas sombras. Foco na minha respiração que vai retomando o ritmo lentamente, na dor que parece ter tomado todo o meu corpo, e permito que o alívio me faça dormir, sabendo que terei que esperar por horas, senão até o dia seguinte, para conseguir sair em segurança. Mas por ora minha fuga terminou.


Registros de Arvoredo do Pardal é um blog pessoal que utilizo para praticar a escrita. Por isso, não tenho compromisso com frequência, qualidade ou tema dos textos publicados. Se quiser saber mais, clique aqui. 🙂


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